Quando é que um Rembrandt é de fato um Rembrandt?
em Nova York
A ruptura da cultura contemporânea com o passado artístico é atualmente tão radical que a maioria de nós não é mais capaz de fruir os quadros dos Velhos Mestres. Uma série de episódios ocorrido no leilão no valor de US$ 110 milhões, na semana passada, na Sotheby's, conduziu a essa conclusão surpreendente.
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| Dependendo da avaliação, um Rembrandt pode valer US$ 3 milhões ou US$ 25 milhões |
Um deles foi aquele bom e velho jogo que poderia ser apelidado de "Devemos chamá-lo de Rembrandt?". A arte do mestre passa por altos e baixos, dependendo do estado de espírito daqueles que conhecem a sua obra. Do início do século 20, quando quase 700 quadros foram aceitos como autênticos, até ao atual processo de revisão patrocinado pelo Projeto Holandês de Pesquisa Rembrandt, a carruagem artística de Rembrandt tem viajado por uma estrada esburacada.
Trata-se de um drama multimilionário. Caso seja promovido aos escalões inferiores da ordem de Rembrandt, um quadro minúsculo pode ser agraciado com uma avaliação de US$ 3 milhões a US$ 4 milhões, conforme constatou uma mulher que compareceu ao leilão da Sotheby's na quinta-feira, 25 de janeiro. E caso se determine que a obra pertence ao último período do artista, quando ele mergulhou mais profundamente que qualquer outro pintor ocidental na alma humana, um quadro de Rembrandt poderá ser avaliado entre US$ 20 milhões e US$ 25 milhões, ou até mais. Foi isso o que ocorreu na venda do segundo Rembrandt no leilão da Sotheby's, o quadro "São Tiago Maior", ao qual à mídia prestou o tributo obrigatório.
As avaliações foram alvo das atenções. Já os quadros nem tanto.
No seu texto de três páginas sobre o quadro "Retrato de uma Mulher Jovem com Gorro Negro", a Sotheby's começou afirmando: "Rembrandt pintou este retrato sutil e perfeito em 1632". E acrescentou casualmente: "Ele é pintado em uma tela, que mais tarde foi recortada em formato oval e colada sobre um painel". Isso explica porque o braço esquerdo da mulher dá a impressão de ser esquisitamente comprido, assim como o fato de a imagem inteira estar fora de equilíbrio. Acrescentem a isso o ligeiro estrabismo e a face pálida e flácida e o resultado não é assim tão "perfeito".
De qualquer forma, um Rembrandt é um Rembrandt. Ou não? Os leitores apressados podem ter pulado a sentença seguinte e a sensação de intenso horror que ela provoca: "O seu formato alterado e as pinturas posteriormente sobrepostas à imagem fizeram com que o Projeto de Pesquisa Rembrandt o rejeitasse como sendo a obra de um imitador em 1972".
Mais tarde, o Rembrandt rebaixado à categoria de falsificação foi novamente promovido à condição de obra original. Em 1995, após um processo rigoroso de limpeza e análise, o Projeto de Pesquisa Rembrandt declarou que o quadro era realmente um Rembrandt legítimo. Mas o fato de os especialistas terem que recorrer aos homens de jaleco brancos para se assegurarem de que um quadro não é espúrio não se constitui em boa referência para a pintura. Porém, na semana passada, o culto à celebridade funcionou. Com um preço inicial de US$ 9 milhões, a beldade de face flácida que traz a assinatura de um nome sublime alcançou o dobro das expectativas de venda da Sotheby's.
O quadro seguinte, datado de 1661, não acusou um desempenho tão estupendo, mas conseguiu superar o preço de US$ 18 milhões estabelecido pela Sotheby's e saltar para uma avaliação de US$ 25 milhões. Por este fato, a casa de leilões merece a gratidão do vendedor, identificado como "Fundação Shippy de Auxílio à Educação, à Justiça Social e aos Serviços Humanos".
O catálogo trazia dados de uma precisão perturbadora. Uma faixa de tela de cerca de quatro centímetros de largura foi acrescentada ao lado esquerdo do quadro, substituindo "um pedaço provavelmente mais estreito da tela original" pintado de preto para definir a margem esquerda da obra. Rachaduras estreitas são resultado "da tensão do esticador", oito buracos foram perfurados na tela, seis deles através da imagem, e podem ser observadas abrasões na extremidade do quadro.
Mas o pior de tudo era a expressão de piedade benévola da figura, o que faz com que esta obra seja bem diferente do profundo retrato de Rembrandt, "São Bartolomeu", que atualmente está no Museu Getty, e que também é datado de 1661. Ao contrário do que se esperava, não faltaram ofertas. Exibido no ano passado na Galeria Salander O'Reilly, em Nova York, e visto uma segunda vez na Feira Européia de Belas Artes em Maastricht, na Holanda, em 2006, o quadro de aura sagrada foi colocado a venda desta vez por um valor entre US$ 18 milhões e US$ 25 milhões, como se fosse um produto em promoção de fim de temporada. Isso bastaria para ter acabado com a fama do quadro algumas décadas atrás. O seu sucesso, um triunfo da arte de leiloar, não depõe muito a favor na nossa abordagem dos Velhos Mestres.
E os Rembrandts não foram exceções excêntricas. Um paralelo revelador é proporcionado pelo "Retrato do Perfil de uma Mulher", descrito como sendo obra de "Alessandro di Mariano Filipepi, conhecido como Sandro Botticelli". Bernard Berenson, o especialista que realizou grande parte do trabalho pioneiro sobre a pintura italiana da Renascença, apresentou o painel em 1901 como sendo o trabalho de "Um Amigo de Sandro". Tendo refletido bastante sobre ele (e depois de vê-lo após uma limpeza), Berenson apresentou-o uma segunda vez em 1963 como um trabalho assinado pelo mestre.
Um outro especialista, Adolpho Venturi, rejeitou-o duas vezes, em 1925 e 1927, antes de aceitá-lo. Quando dois especialistas conhecidos na sua época pelo seu olhar aguçado precisam de duas análises para terem convicção de que um quadro de determinado mestre é de fato autêntico, isto raramente se constitui em um bom sinal. É algo que pode significar qualquer coisa, desde uma sensação instintiva de que a obra não poderia ter sido pintada pelas próprias mãos do artista até o repúdio às várias restaurações.
De fato, o estado do trabalho deixa algo a desejar. O fundo é difuso. Uma rachadura vertical na superfície da pintura que desce desde o seu topo ao longo do cabelo foi grotescamente camuflada. E a cabeleira possui mechas marrons toscas - sabe-se lá quem foi o responsável por isso. O fundo negro à esquerda para o qual a retratada olha é incompreensível. Costumava-se dizer que a beleza está nos olhos de quem observa. Na última ocasião em que os potenciais compradores viram o retrato da mulher aqui na Sotheby's, em janeiro de 2003, não fizeram nenhuma oferta. Mas, desta vez, a mágica associada ao nome do artista mostrou-se irresistível. O retrato foi arrematado por US$ 4,74 milhões. Para um bom Botticelli, isso teria sido uma pechincha. Ou, para usar um outro cliché, a pessoa compra algo condizente com o valor pago.
E o indíviduo também compra aquilo que é capaz de ver. Uma das mais raras obras na sessão da quinta-feira na Sotheby's foi uma "Pietá", reconhecida pelos especialistas como sendo um trabalho de Defendente Ferrari, que atuou no cenário artístico por volta do período 1510-1535. O quadro deve ter sido maltratado em algum lugar durante o armazenamento, tendo sofrido arranhões que arrancaram pequenos pedaços de pigmento. A despeito disso, a superfície pintada, que não sofreu limpezas e retoques repetidos, está relativamente bem preservada.
Impressionante e raro, o painel pintado por Defendente tem o tamanho exato para um museu, 66 por 83,9 centímetros. Oferecido por US$ 540 mil, mais do que uma avaliação modesta anterior, essa obra-prima estava bem acessível para aqueles que raciocinam em termos de milhões de dólares. Onde estavam os museus que contam com os recursos e que necessitam de tais raridades? Talvez eles estivessem ocupados vendendo as suas próprias obras dos Velhos Mestres.
Duas instituições norte-americanas estavam fazendo exatamente isso durante as sessões de 25 e 26 de janeiro da Sotheby's. "O fato de não se livrar de obras de arte não desnecessárias significa que o museu terá que investir tempo e dinheiro no tratamento, na conservação e no armazenamento dessas obras", explicou Scott Schaefer, curador de pinturas do Museu Getty, em um discurso introdutório no leilão de 21 quadros. Aparentemente, o Museu Getty não contava com tempo para dedicar à soberba paisagem de Jan van der Heyden que mostra "A Estalagem do Porco Preto".
O quadro, assinado com as iniciais VH foi comprado por J. Paul na Sotheby's em junho de 1959 por 7.800 libras esterlinas, e transferido do seu acervo particular para o museu que tem o seu nome. Os curadores podem ter sentido que estavam dando um golpe comercial já que o quadro foi arrematado por US$ 132 mil. O mesmo deve ter achado, sem dúvida alguma, Johnny van Haeften, de Londres, o grande conhecedor e comerciante de quadros flamengos e holandeses, ao derrubar uma proposta feita por um potencial comprador por telefone.
O Museu de Arte de Toledo, da mesma forma, estava se livrando dos seus Velhos Mestres - a instituição vendeu dez deles na principal sessão da quinta-feira. A "Anunciação", que foi vendida por US$ 4,44 milhões, provavelmente não é o El Greco que os amantes da arte gostariam de ver no seu museu favorito. Mas, no que diz respeito aos quadros de Reynolds, o "Retrato de Miss Jacobs" (o nome está impresso na reprodução entalhada por John Spilsbury em janeiro de 1762) é tão bom quanto qualquer outro.
A sua história remonta ao leilão das obras de Reynolds em Londres em 15 de abril de 1796 (lote 14: 12,12 libras esterlinas). William Collins Whitney mantinha o quadro na sua enorme residência na Quinta Avenida. Samuel Peck, da cidade de Nova York, o doou ao museu em 1953 e a obra foi exibida com destaque na exposição "Em Busca da Excelência", no Centro de Belas Artes em Miami, em 1984. Mas atualmente tudo issoo parece pertencer a uma outra era cultural.















